SEJA BEM-VINDO!

BEM-VINDO AO MUNDO DA ESCRITA!

EIS AQUI O ESPAÇO VIRTUAL ONDE AS PALAVRAS BUSCAM SE LIBERTAR DO LIMBO.



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CAROS AMIGOS,

A CARA DO BLOG MUDOU, ENTRETANTO A AVENTURA DE ESCREVER CONTINUA VIVA.

ESTAMOS AQUI À ESPERA DE QUE VOCÊS NOS LEIAM E, SE POSSÍVEL, DEIXEM UM COMENTÁRIO.

ABRAÇO FRATERNO.

(HOMERO DE LINHARES)


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AVISO AOS INTERNAUTAS,

A PARTIR DE HOJE, ESTOU AQUI COM HOMERO DE LINHARES, REVEZANDO NA ARTE DA PALAVRA.

GRANDE ABRAÇO.


(DAVID BELLMOND)







sexta-feira, 16 de abril de 2010

PAIS, FILHOS E ESCOLA


CONDUTA MÍNIMA DE VIDA EM GRUPO



Foi Pitágoras quem disse "Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos". A Constituição Federal Brasileira, no Art. 205, determina que “A educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Não é segredo de estado que os governos municipais, estaduais e federal cumprem seu papel precariamente uma vez que a educação pública de qualidade ainda está longe de ser realidade. Mas e a família? Qual tem sido a participação de pais e mães na formação dos nossos educandos? Infelizmente muitos tutores irresponsáveis se limitam a transferir para a escola, representante legítima do Estado na função de educar, a tarefa árdua de transformar crianças e adolescentes - sem nenhuma margem de limites e respeito ao próximo – em cidadãos exemplares.
Educar não significa apenas ensinar gramática, matemática e outras matérias antipáticas aos futuros sujeitos atuantes da nossa sociedade. Se estamos mergulhados numa parafernália de violência e resultados negativos quando o assunto é aprendizagem, a família tem uma parcela grande de culpa. Outro dia, num ambiente escolar, um professor solicitou a uma aluna que parasse de conversar, pois estava atrapalhando a correção de exercícios. A adolescente foi incisiva ao retrucar que nunca a mãe havia falado daquela forma com ela, portanto o professor também não tinha direito de falar de tal modo.
Realmente a aluna estava repleta de razão já que a escola não está incumbida de ensinar boa índole, caráter ou boas maneiras àqueles que não foram educados pelos próprios pais. Ainda que os professores exerçam papel de genitores, tios, padrinhos, babá, assistente social, psicólogo, polícia e juiz, esse acúmulo de funções não está determinado em nenhuma lei. A fim de que nossos alunos sejam cidadãos adultos capazes de agir responsavelmente na construção de uma nova sociedade mais justa na prática, a família precisa dar a contribuição legítima no ensinamento de conduta mínima de vida em grupo.

(David Bellmond / Mestre em Estudos Literários / 16 de abril de 2010)

terça-feira, 13 de abril de 2010

CURTOS

O SISO

E eu disse ao dentista:
Preciso extrair esse dente, pois ele está me dando muita dor de cabeça.
Além de muita dor de dente, é claro!


A CIRURGIA

Eu fiz duas cirurgias: uma em São Paulo e outra na orelha.



ARMAZÉM DO GODÔ (DE ENGENHO DO MATO - NITERÓI)

_ O Senhor tem remédio pra rato?
_ E o seu rato está sentindo o quê?

(Homero de Linhares)

P.S.: A falta de inspiração tem me obrigado a escrever bobagens.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A DAMA OU O TIGRE?

A Dama ou o Tigre? (Frank Stockton)



Em tempos remotos, vivia um rei semi-bárbaro, cujas idéias, embora tornadas um tanto brilhantes e sutis pelo progresso dos seus distantes vizinhos latinos, eram ainda opulentas, floridas e arbitrárias, como convinha à metade bárbara da sua natureza.
Era um homem de imaginação exuberante. Além disso, de uma autoridade tão irresistível que, a um simples desejo seu, transmudava em realidade as suas variadas fantasias. Era grandemente dado à auto-determinação: quando entrava em acordo consigo mesmo sobre uma coisa qualquer, essa coisa se podia considerar realizada. Quando todos os membros dos seus sistemas domésticos e políticos se moviam maciamente no rumo indicado, a sua natureza era branda e alegre; mas se acaso surgisse um pequeno impedimento, e um ou outro dos elementos desses sistemas desgarrassem das suas órbitas, ele ainda ficava mais brando e alegre, pois nada lhe agradava mais do que endireitar o que estava torto e destruir qualquer irregularidade.
Dentre as noções importadas, pelas quais o seu barbarismo se havia reduzido à metade, contava-se a arena pública, onde, pelas exibições da valentia humana e animal, os espíritos dos seus vassalos eram aperfeiçoados e cultivados. Mas ainda aqui a fantasia exuberante e bárbara afirmava-se.
A arena do rei fora construída, não para dar ao povo uma oportunidade de ouvir as rapsódias de gladiadores moribundos, nem para habilitá-los a ver o inevitável desfecho de um conflito entre opiniões religiosas e fauces famintas, mas com propósitos muito mais aptos a alargar e desenvolver as energias mentais do povo. Esse vasto anfiteatro, com suas galerias circulares, suas misteriosas abóbadas e suas passagens secretas, constituía um agente de poética justiça, onde o crime era punido ou a virtude recompensada, pelos decretos de uma imparcialidade e incorruptível fortuna.
Quando um vassalo era acusado de um crime de importância tal que pudesse interessar o rei, baixava-se um aviso público, designando o dia em que o destino da pessoa acusada seria decidido na arena do rei. Era uma construção que bem merecia este nome. Embora a sua forma e a sua planta tivessem sido importadas do estrangeiro, o fim a que era destinada provinha unicamente do cérebro desse homem, que não conhecia tradição a que devesse maior lealdade do que agradar a sua fantasia, e que imprimia a cada forma alienígena do pensamento e da ação humana o rico vigor de seu bárbaro idealismo.
Quando todo o povo se encontrava reunido nas galerias, o rei, rodeado pela sua corte, depois de se sentar no seu alto trono, dava um sinal, e uma porta abaixo dele se abria, saindo dela para o anfiteatro o súdito acusado. Diretamente em oposição a ele, no outro lado do espaço fechado, havia duas portas exatamente iguais, colocadas lado a lado. Era dever e privilégio do indivíduo em julgamento caminhar diretamente para essas portas e abrir uma delas. Ele poderia abrir a porta que lhe agradasse; não estava sujeito a nenhuma orientação ou influência, à exceção da própria sorte, imparcial e incorruptível.
Se abrisse uma, sairia dela um tigre faminto, o mais feroz e cruel que tivesse sido encontrado, o qual imediatamente saltaria sobre ele e o faria em pedaços, como punição pela sua falta. No momento em que o caso do criminoso assim se decidia, dolentes sinos ressoavam, grandes lamentos eram lançados por indivíduos alugados para esse fim e colocados nas bordas exteriores da arena. E aquela enorme multidão, de cabeças inclinadas e coração abatido, tomava vagarosamente o caminho de suas casas, lamentando grandemente que uma pessoa tão jovem e bela, ou tão velha e respeitada, tivesse merecido tão horrível destino.
Mas se a pessoa acusada abrisse a outra porta, sairia dela uma dama, a mais adequada à sua idade e condição, que pudesse ter sido escolhida por Sua Majestade entre as suas belas vassalas; e com essa dama ele iria imediatamente se casar, como recompensa de sua inocência. Não importava que ele já possuísse mulher e filhos, ou que seu coração se houvesse comprometido com outra de sua própria escolha: o rei não consentia que tais obrigações viessem a interferir no seu grande plano de retribuição e recompensa.
Como no outro caso, esses atos tinham lugar imediatamente, ainda na própria arena: uma outra porta se abria abaixo do rei, e um sacerdote, seguido por um bando de coristas e de bailarinas, modulando epitalâmios em cornetas douradas, avançava até o lugar onde se achava o par; e o casamento era pronta e alegremente celebrado. Então os festivos sinos de bronze repicavam alegremente, o povo lançava brados de contentamento, e o homem inocente, precedido por crianças que espalhavam flores no seu caminho, conduzia a noiva para a sua casa.
Ora o tigre saía de uma porta, ora de outra. O criminoso não podia saber de que porta sairia a dama. Abriria a que lhe agradasse, sem a menor idéia do que lhe estava reservado para aquele instante mesmo: se iria ser devorado ou casado. Era esse o método semi-bárbaro a que o monarca recorria para administrar justiça. A perfeita retidão do método é evidente.
As decisões desse tribunal eram não somente honestas, mas concretamente executadas: o acusado via-se instantaneamente punido, quando culpado; quando inocente, era recompensado no ato, quer quisesse, quer não. Não havia como escapar aos julgamentos da arena do rei.
A instituição era verdadeiramente popular. Quando o povo se reunia num dos grandes dias de julgamento, nunca sabia se iria testemunhar uma morte sangrenta ou um festivo casamento. Esse elemento de incertezas emprestava à ocasião um interesse que de outro modo não poderia ser atingido. Assim, divertia-se a massa, e a parte pensante da comunidade não poderia acusar o sistema de iníquo; pois não tinha o acusado o julgamento nas suas próprias mãos?

Esse rei semi-bárbaro possuía uma filha, tão bela como as suas mais esplêndidas fantasias, e com uma alma tão ardente e imperiosa como a sua própria. Como acontece em tais casos, ela era a menina dos seus olhos, e ele a amava acima de toda a humanidade. Entre os seus cortesãos havia um jovem com aquela pureza de sangue e vileza de condições, comuns aos heróis de romance que amam as donzelas reais. Essa donzela real estava bem satisfeita com o seu amado, porque ele era belo e bravo, num grau não ultrapassado em todo o reino; e ela o amava com um ardor que possuía o barbarismo suficiente para fazê-lo excessivamente ardente e forte.
O amor desses dois jovens transcorreu feliz durante muitos meses, até o dia em que o acaso levou o rei a descobrir a sua existência. E não hesitou quanto ao que lhe cumpria fazer. O jovem foi imediatamente lançado na prisão, e marcou-se o dia para o seu julgamento na arena do rei. Naturalmente, essa era uma ocasião especialmente importante, e Sua Majestade, assim como todo o povo, estava grandemente interessado no desenvolvimento dessa prova. Jamais ocorrera caso semelhante; jamais havia um súdito ousado amar a filha dum rei. Nos anos posteriores tais coisas tornaram-se bastante comuns, mas então elas constituíam uma espantosa novidade.
As jaulas de tigres do rei foram vistoriadas, a fim de se selecionar o monstro mais feroz para ser levado à arena. E todas as categorias de virgens jovens e belas foram cuidadosamente inspecionadas por juízes competentes, de modo a que o jovem pudesse ter uma noiva conveniente, no caso de a fortuna não lhe reservar diferente destino.
Naturalmente, todos sabiam que ato lhe era imputado: havia-se enamorado da princesa, e nem ele nem ela, ou quem quer que fosse, pensava jamais em negar esse fato. Mas o rei não permitiria que uma circunstância como essa fosse interferir nos trabalhos do tribunal, dos quais ele tirava tão grande deleite e satisfação. Não importava como o fato se processara, o jovem iria privar-se desse amor; e o rei tomaria um prazer estético em observar o curso dos acontecimentos, que determinavam se o moço tinha cometido um erro ou não, ao permitir-se amar a princesa real.
O dia designado chegou. Proveniente de longe e de perto, o povo foi-se reunindo e comprimindo nas grandes galerias da arena; e multidões, impossibilitadas de entrar, amontoavam-se contra as paredes exteriores. O rei e a sua corte achavam-se nos seus lugares, em oposição às portas gêmeas — aquelas portas fatídicas, tão terríveis na sua similitude.
Tudo estava pronto. O sinal foi dado. Uma porta por baixo da bancada real abriu-se, e o namorado da princesa apareceu na arena. Alto, belo, elegante, o seu aparecimento foi saudado com um surdo cochichar de admiração e ansiedade. Metade da assistência não sabia que um tão magnífico jovem pudesse viver entre eles. Não era de admirar que a princesa o amasse! Que terrível situação a dele!
Quando o jovem avançou dentro da arena, voltou-se, como era o costume, para reverenciar o rei; mas ele não pensava absolutamente naquele personagem real; seus olhos estavam fixos na princesa, sentada à direita de seu pai. Não fosse pela metade de barbarismo que entrava na sua natureza, é provável que aquela dama não estivesse ali; mas sua alma intensa e ardente não lhe permitira subtrair-se a um espetáculo que tão terrivelmente lhe interessava.
Desde o momento em que fora divulgado o decreto, segundo o qual seu amado decidiria o próprio destino na arena do rei, ela não tinha pensado em mais nada, noite e dia, senão nesse grande acontecimento e nos vários assuntos com ele relacionados. Possuindo mais poder, influência e força de caráter do que qualquer outra pessoa interessada no caso, ela tinha feito aquilo que nenhuma outra pessoa conseguira: havia-se apossado do segredo das portas. Sabia em qual dos dois compartimentos, que ficavam por detrás daquelas portas, se achava a jaula do tigre, e em qual deles a dama esperava. Através daquelas espessas portas, pesadamente forradas com peles pelo lado de dentro, era impossível que algum ruído denunciador chegasse aos ouvidos da pessoa que se aproximasse para levantar a aldrava de uma delas; mas o ouro e poder de vontade de uma mulher tinham entregue esse segredo à princesa.
Não somente ela sabia em que compartimento estava a dama pronta para aparecer, toda ruborizada e radiante, assim que a sua porta se abrisse, como também sabia quem era a dama. Era uma das mais belas e amáveis donzelas da corte, que havia sido escolhida como recompensa para o jovem acusado, caso ele fosse julgado inocente. E a princesa a odiava. Muitas vezes ela tinha visto, ou imaginado ver, aquela bela criatura lançando olhares de admiração sobre a pessoa do seu amado, e às vezes pensava que esses olhares eram percebidos e até retribuídos. Uma ou outra vez, ela os tinha visto conversando. Conversas que haviam durado apenas um momento, porém muita coisa pode ser dita num breve espaço de tempo. Talvez eles se houvessem ocupado de assuntos de pouca importância, mas como poderia ela sabê-lo? A jovem era adorável, mas tinha ousado levantar os olhos para o amado de uma princesa; e com toda a intensidade do sangue selvagem transmitido através de longas linhagens de ancestrais inteiramente bárbaros, ela odiava a mulher que corava e tremia atrás daquela porta silenciosa.
Quando se voltou para ela e a viu sentada, com a face mais pálida do que qualquer outra no vasto oceano de fisionomias ansiosas que o rodeavam, ele sentiu ao encontrarem-se os seus olhares, pelo poder de rápida percepção que é dado a todos aqueles cujas almas se acham fundidas numa só, que ela sabia atrás de que porta se achava o tigre e atrás de qual delas se encontrava a dama. Ele havia esperado que ela tivesse conseguido saber isso. Compreendia-lhe a natureza, e estava seguro de que ela nunca descansaria, até que se houvesse esclarecido sobre essa coisa que permanecia ignorada de todos os outros espectadores, até do rei. A única esperança que tinha o jovem, de agir de maneira certa e segura, era baseada no bom êxito da princesa em descobrir o mistério; e no momento em que a fitava, percebeu que ela tinha obtido o êxito que ele tanto lhe almejara.
Quando seu rápido e ansioso olhar formulou a pergunta “qual?”, foi para ela tão claro como se, do lugar onde se achava, ele houvesse feito a pergunta em alta voz. Não havia um instante a perder. A pergunta fora feita num relâmpago; deveria ser respondida num outro.
O braço direito da princesa repousava sobre o parapeito almofadado que se estendia à sua frente. Ela levantou a mão, e fez um leve e rápido movimento para a direita. Ninguém, a não ser seu amado, viu esse gesto. Todos os olhos, a não ser os dele, estavam fixos no homem que se encontrava no centro da arena.
Ele voltou-se, e com passo firme e rápido atravessou o espaço vazio. Todos os corações pararam de bater, toda respiração foi suspensa. Sem a menor hesitação, ele dirigiu-se à porta da direita, e abriu-a.
A questão, agora, é esta: Foi o tigre que saiu daquela porta? Ou foi a dama?
Quanto mais refletimos sobre a questão, tanto mais difícil se torna o responder. Ela envolve um estudo do coração humano, que nos conduz através os mais extraviados labirintos de paixões, fora dos quais é difícil achar um caminho. Pense nela, honrado leitor, não como se a resposta à questão dependesse de você mesmo, mas daquela princesa de sangue ardente e semi-bárbara, com a alma aquecida ao branco, sob os fogos combinados do desespero e do ciúme. Ela o tinha perdido. Mas quem o possuiria?
Quantas vezes, nas suas horas de vigília e nos seus sonhos, tinha ela estremecido de desenfreado horror, e havia coberto a face com as mãos, quando pensava no seu amado abrindo a porta, do outro lado da qual o esperavam as garras cruéis do tigre!
Mas vezes sem conta ela o tinha visto na outra porta! Nos seus mortificantes devaneios, tinha rangido os dentes e arrancado os cabelos, ao ver o tremor de arrebatadora satisfação que se apossava dele, quando abria a porta da dama! Como a sua alma ardera na agonia, ao vê-lo lançar-se ao encontro daquela mulher, que ostentava uma face ruborizada e um fascinante olhar de triunfo; ao vê-lo conduzindo-a para fora, com todo o seu corpo abrasado na alegria da vida recuperada; ao ouvir os brados alegres da multidão e o desenfreado e festivo repicar dos sinos; ao ver o sacerdote, com sua alegre comitiva, avançando até onde se achava o par, para fazê-los marido e mulher diante dos seus próprios olhos; e ao vê-los afastarem-se, juntos, pisando o seu caminho de flores, acompanhados pelos tremendos brados da alegre multidão, onde um único grito de desespero — o dela — ficara perdido e afogado!
E aquele terrível tigre, aqueles gritos, aquele sangue! Não seria melhor que ele morresse de uma vez, e que fosse esperar por ela nas bem-aventuradas regiões da sua semi-bárbara vida futura?
A sua decisão tinha sido tomada depois de dias e noites de angustiosa deliberação. Sabia que ele lhe faria aquela pergunta, e tinha decidido o que lhe responderia. Sem a mais leve hesitação, havia movido a sua mão para a direita.
A decisão constitui um ponto que não deve ser levianamente considerado; e eu não me julgo a pessoa capaz de responder à questão. Assim, deixo-a para você, leitor: quem saiu da porta aberta — a dama ou o tigre?


(Frank Stockton)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Este amor (Jacques Prévert)


Este amor

Este amor
Este amor
Tão violento
Frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Tão bonito como o dia
E mau como o tempo
Quando o tempo está ruim
Este amor tão verdadeiro
Este amor tão bonito
Tão feliz
Tão alegre
Tão irônico
Tremendo de medo como uma criança no escuro
Tão confiante
Como um homem tranquilo no meio da noite
Este amor que assusta os outros
Que os faz falar
Que os faz empalidecer
Este amor de espionagem
Porque nós o espiávamos
Perseguidos feridos mortos pisoteados esquecidos negados
Por que temos perseguido ferido matado pisoteado esquecido negado
Este amor um pedaço
No entanto, tão vivo
E tudo ensolarado
E seu
E meu
Ele era o que era
Esta coisa sempre nova
Que nunca mudou
Verdadeiro como uma planta
Esvoaçante como um pássaro
Quente e vivo como o verão
Podemos tanto
Ir e voltar
Esquecermos
E depois dormir de novo
Despertar sofrer envelhecer
Adormecer novamente
Sonhar a morte
Acordar sorrindo e rindo
E rejuvenescer
O nosso amor está lá
Teimoso como um burro
Vivo como o desejo
Cruel como a memória
Seco como o arrependimento
Terno como a memória
Frio como o mármore
Tão bonito como o dia
Frágil como uma criança
que nos olha sorrindo
E nos fala sem dizer nada
E eu tremendo o escuto
E grito
Grito por você
Grito por mim
Eu imploro
Por você, por mim, por todos aqueles que amam
E que são amados
Sim, eu vou gritar
Por você, por mim e por todos os outros
que não conheço
Parado
Onde você está
Onde você esteve em outros momentos
Parado
Não se mova
Não se vá
Nós, que fomos amados
Nós, que fomos esquecidos
Não nos esqueçamos
Não tivemos mais que amor sobre a terra
Não deixemos tornar-nos frios
Embora muito longe ainda
E não importa onde
Dê-me um sinal de vida
Muito mais tarde à margem de uma floresta
Na floresta da memória
Levantemo-nos Agora
Para dar-nos as mãos
E nos salvar.

(Jacque Pévert / Tradução em Português por David Bellmond)



Questo amore

Questo amore
Questo amore
Così violento
Così fragile
Così tenero
Così disperato
Questo amore
Bello come il giorno
E cattivo come il tempo
Quando il tempo è cattivo
Questo amore così vero
Questo amore cosí bello
Così felice
Così gaio
E così beffardo
Tremante di paura come un bambino al buio
E così sicuro di sé
Come un uomo tranquillo nel cuore della notte
Questo amore che impauriva gli altri
Che li faceva parlare
Che li faceva impallidire
Questo amore spiato
Perché noi lo spiavamo
Perseguitato ferito calpestato ucciso negato dimenticato
Perché noi l'abbiamo perseguitato ferito calpestato ucciso negato dimenticato
Questo amore tutto intero
Ancora così vivo
E tutto soleggiato
E' tuo
E' mio
E' stato quel che è stato
Questa cosa sempre nuova
E che non è mai cambiata
Vera come una pianta
Tremante come un uccello
Calda e viva come l'estate
Noi possiamo tutti e due
Andare e ritornare
Noi possiamo dimenticare
E quindi riaddormentarci
Risvegliarci soffrire invecchiare
Addormentarci ancora
Sognare la morte
Svegliarci sorridere e ridere
E ringiovanire
il nostro amore è là
Testardo come un asino
Vivo come il desiderio
Crudele come la memoria
Sciocco come i rimpianti
Tenero come il ricordo
Freddo come il marmo
Bello come il giorno
Fragile come un bambino
Ci guarda sorridendo
E ci parla senza dir nulla
E io tremante l'ascolto
E grido
Grido per te
Grido per me
Ti supplico
Per te per me per tutti coloro che si amano
E che si sono amati
Sì io gli grido
Per te per me e per tutti gli altri
Che non conosco
Fermati là
Là dove sei
Là dove sei stato altre volte
Fermati
Non muoverti
Non andartene
Noi che siamo amati
Noi ti abbiamo dimenticato
Tu non dimenticarci
Non avevamo che te sulla terra
Non lasciarci diventare gelidi
Anche se molto lontano sempre
E non importa dove
Dacci un segno di vita
Molto più tardi ai margini di un bosco
Nella foresta della memoria
Alzati subito
Tendici la mano
E salvaci.

(Jacque Prévert / Tradução em italiano)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

MENIFESTO DO PROFESSOR ( Autor Desconhecido)





Encontrei este panfleto sobre a mesa dos professores numa escola de Vitória. Resolvi fazer algumas inserções sem prejuízo do original e reproduzir aqui afim de disseminar dentre os colegas do ofício. Dê a sua contribuição: compartilhe com outros companheiros esse manifesto.






VEJA PORQUE O PROFESSOR ADOECE, O ALUNO NÃO APRENDE E A VIOLÊNCIA ASSUME PROPORÇÕES INCONTROLÁVEIS


O prefeito quer voto e riqueza, por isso usa a escola como palanque. Nomeia um oportunista, o secretário de educação, que quer fama e gratificação gorda e, quem sabe, uma carreira política. Os dois usam o líder comunitário de caráter duvidoso e ignorância bem conhecida. Este, controlado pela central das associações de moradores, órgão responsável pelo curral eleitoral, está nas mãos dos prefeitos.


Os empresários financiam as campanhas dos políticos (prefeito), portanto mandam no legislativo que, por sua vez, controlam o povo juntamente com as emissoras de televisão e agências de propaganda que vendem os produtos dos empresários para toda a sociedade.


Nasce do ambiente social e escolar o diretor das unidades de ensino: cansado, de vida familiar mal-resolvida, falido financeiramente, fracassado enquanto regente, pouco ensinou, pois ninguém quis aprender, no máximo um bom gritador, já de certo tempo de serviço. Emburreceu profissionalmente ao longo de sua vida funcional, nunca teve formação decente e se acha no direito de julgar a capacidade dos professores comandados por ele. Aqueles que poderiam fornecer ao diretor tal aprimoramento, os técnicos da secretária de educação, só lhe forneceram conformação. Muitos técnicos são também fugitivos, indicados por políticos, mal formados e desinformados, ou até mesmo de mau caráter. Estão ali (na secretaria de educação) para fugirem de sala de aula, com toda razão.


Os diretores fazem questão de não andarem na lei. E começam seu reinado pelas portarias: a cada portaria uma reunião. O professor com crise renal precisa tomar água constantemente. Reunião com a equipe pedagógica. A professora da educação infantil, com cistite, vai duas vezes ao banheiro. Nova reunião. O professor de Português expulsa alunos da sala de aula devido à indisciplina. Reunião com os coordenadores. O prefeito resolve esburacar toda a cidade para pagar dívida de campanha com empreiteiras, causando transtornos e engarrafamento e atrasos. Reunião. Anota cinco minutos de atraso do professor de inglês. Incute na cabeça fraca do professor que ele tem que dominar o aluno, subjugar, intimidar, fazer cara feia, gritar, estourar a sua garganta. Nunca admite, ou a sua ignorância não o permite ver, que a educação tem que ser um valor social. Da mesma forma que o futebol é. Se fosse um valor, automaticamente o aluno buscaria, portanto, usaríamos o método pedagógico para aprimorar, não para curar como o pedagogo induz: cola, pinta, tira foto, faz projeto pedagógico, mas não dá aula. Surge o professor multimídia, que faz tudo...menos dar aula.


Esta prática de direção traz como consequência as mais variadas doenças ocupacionais. Quem adoece o professor? Quem torna a profissão um fardo? . Quem permite que o aluno xingue e agrida o professor? Quem implanta a política assistencialista do governo nas escolas? Resposta: o diretor fugitivo. Quem permite que o aluno detonado e desinteressado fale que a sua aula não é interessante? Bom, aí não é só o diretor.


Surge em questão uma nova figura, o pedagogo; seu histórico escolar da graduação é de dar inveja a Gandhi, Martin Luther king e Che Guevara ao mesmo tempo. Estudou Filosofia, Sociologia, legislação, Políticas públicas, História da Educação e muito mais: Marx, Durkheim, Chalitas, Içami Tiba, Paulo Freire, Paulo Coelho, Roger Rabbit e etc. E mesmo assim se localiza bem à direita da direção. Às vezes dá a impressão de que é um vice diretor. Em via de regras: nunca fala das leis que podem ser usadas para beneficiar a educação de qualidade, não deseja sequer que o aluno tenha melhores condições sociais, não sugere luta social alguma. Luta sindical nem pensar. Você já viu pedagogo encaminhar greve em escola? Liderar algum movimento político contra a secretaria de educação? Denunciar diretor por abuso de poder ou omissão? Reclamar de diretor que, em vez de fazer a gestão apregoada pela nova educação, fica pelos cantos vigiando professor? O que há de errado com esta função? Você se lembra de cobrança de pautas? Parece que o trabalho do pedagogo na escola se resume a isso. Se você é pedagogo atuante, favor desconsiderar. È que isso não é comum.


Professor, abra o olho, Professor. Você não é um fraco. Muito pelo contrário. O que acontece é que as leis não são cumpridas. Não são porque ninguém pede ou exige. O jurídico do Sindiupes não quer ter trabalho e manipula os fracos dos sindicalistas. Grita-se muito e legalmente não se encaminha nada. Por exemplo: Em caso de agressão ao professor, por que o jurídico não comparece à escola agressora? Por que o sindicato não faz relatório e encaminha legalmente o caso ao Ministério Público Federal contra o diretor e a secretaria de educação? Isso não acontece porque é mais fácil adoecer o professor.


Os diretores das unidades de ensino se omitem e não encaminham juridicamente os alunos que não têm bom rendimento, indisciplinados, drogados, sem tutor de foto, desacompanhados da vida escolar e social. O aluno ilegal não é encaminhado para que o diretor não tenha trabalho e nem dê trabalho ao prefeito e conseqüentemente às outras secretarias: ação social, secretaria de obras, de transporte, direitos humanos e secretaria de saúde. A secretaria de saúde não vê a hora da prefeitura ser acionada e eles pedirem também condições de trabalho, pois na saúde ninguém quer fazer o papel de psicólogo sem ser, de psiquiatra sem ser, o de mãe sem ser, o de pediatra sem ser. Ali tem profissional, ninguém da saúde quer se responsabilizar pelo modelo social brasileiro. Com razão.


Este modelo vivido e sentido pelo professor não é percebido pelo educador. Nas escolas convidam artistas de renome local ou nacional para iludir a comunidade escolar, querem chamar até exorcista, menos a lei, menos o Ministério Público Federal, pois o Estadual provavelmente pertença ao governador. O docente não percebe que o aluno é educado para não se interessar pela escola e que existe uma receita de bolo para tirar o aluno da escola e conseqüentemente odiar o professor. Essa receita começa em um lugar aparentemente inocente e virtuoso, o CEMEI: lá o estatuto do menor e as outras leis que amparam a criança que poderiam ser usadas em beneficio delas, são covardemente ignoradas pelos diretores dessas unidades, começando aí a construção do aluno bomba que explodirá com gritos, preguiça, descaso, rojões, extintores de incêndio depredados e os hormônios na cara do professor de quinta a oitava. O diretor do CEMEI permite que a criança seja detonada pela família e pela sociedade em geral. A família consente que a criança seja direcionada para a televisão, jogos eletrônicos, propagandas, novelas pornográficas e muito mais. O resultado do descaso é um aluno que não consegue calar, nem ler e quando lê não entende. O aluno com excesso de mídia não consegue ler, fotografa as palavras. Que covardia! Será que pulei uma etapa? Depois do aluno detonado pelo CEMEI, começa a domação de primeira a quarta até a explosão. Bum! Está formado o bonde dos homens bombas (BHB), os bandidos que lotarão os presídios e as covas rasas.


Nas formações, digo: conformações, não são discutidas as leis, não são discutidas as omissões, o abandono de incapaz, do modelo social. Não se discute a rotina do aluno que fica o dia inteiro na TV, no play station, na rua. A família nunca lhe deu a opção ou lhe recomendou livros, historinhas, teatro e boa música. As conformações servem para subjugar o professor e garantir a amputação intelectual do estudante, gerando retardamento, pois esse é o objetivo principal da secretaria de educação, quanto mais retardado melhor. E não cometa a loucura de afirmar que seu aluno falastrão, indisciplinado e incapaz de aprender o mínimo seja um retardado, uma vez que essa atitude pode lhe trazer sérios problemas para o resto da vida. As secretarias de educação ignoram a existência do professor, mas se o aluno ligar para um daqueles técnicos devedores de favores ao prefeito, ao governador, aos parlamentares, aos diretores, e que passam o dia matando moscas em suas salas, eles comparecem à escola imediatamente a fim de que sejam apuradas as irregularidades nas pautas do professor de matemática que deixou metade da turma de recuperação e impor aprovação em massa independente do nível de interesse de alunos e de qual seja a denúncia feita. Com isso, o aluno normal e interessado não tem nenhum projeto ou atenção. Está fadado ao fracasso já que a escola se ocupa de apagar o incêndio provocado pelos alunos problemas.


Portanto, professor, o foco principal da nossa luta não é o salário. Exija condições de trabalho, pois o salário será consequência da educação como valor. A sociedade é feliz às suas custas. A escola tem distribuído imunidade para não se cuidar dos filhos de todo mundo. Pare de aceitar as desculpas. Faça greve junto com a categoria no ano que vem e comece o ano letivo com operação padrão. Seja professor, só aceite o aluno legal. Dê aula para aqueles 6 alunos interessados e o restante ficará com o diretor na quadra (talvez assim ele pare de ficar pelos cantos lhe vigiando como aqueles monstros criados pela ditadura afim de reprimir qualquer manifestação de insatisfação) até que ele use a lei (com outro objetivo que não seja o de ferrar professores) ou os transformem em estudantes.








PS: A gratificação de diretor é R$ 2000,00 + R$ 2000,00 em uma cadeira + R$ 2000.00 em outra cadeira. Total R$ 6000,00. Diretor do Estado: R$ 6200,00 de gratificação para a tipologia de 1500 alunos + salário de R$ 4000,00 em duas cadeiras, o que dá um total R$ 10200. Se ele precisasse realmente trabalhar para fazer jus ao salário, não estaria nadado contra a correnteza do interesse real do magistério.

(Autoria desconhecida/17 de dezembro de 2009)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O PT MORREU E ESQUECEMOS DE ENTERRÁ-LO!



PT...SAUDAÇÕES

Sabe aquele PT ao qual eu e você éramos filiados?  Aquele PT que acompanhava nossas passeatas contra a opressão do patrão? Aquele PT que lutou cotra a censura e contra a ditadura?  Aquele PT que pregava a justiça e a igualdade?  Pois é, aquele PT morreu e já fede junto com os vermes que o devoraram.  Não sobrou sequer a lembrança do significado da sigla (Partido de quê?): Partido dos Traíras, Partido dos Tiranos.

A Prefeitura Municipal de Vitória, capital comandada pelo PT, enviou um decreto aos seus servidores declarando que a partir do presente (dezembro de 2009) fica terminantemente proibida qualquer manifestação, assembléia ou reclamação por parte daqueles que se consideram injustiçados.  O decreto ressalta ainda que o magistério, mais que as demais categorias, deixa de ter direito a se ausentarem do trabalho para se reunirem em assembléias comandadas pelo seu sindicato.  Maquiavel enfim se assumiu nas máscaras dos secretários nomeados pelos nossos líderes Petistas.  Que o PSDB, o PMDB, o DEM e outras siglas ignorassem o direito do trabalhador de se expressar já não era novidade...Mas o PT, partido formado nas bases sindicais, nos movimentos sociais, agir agora como Stalin, Mussolini, Hitler, é de apavorar mesmo os mais esperançosos na estrela vermelha.  Agora é esperar o caos. 

Pois bem, companheiros,  a luta chegou ao fim, a dignidade do trabalhador foi de vez maculada.  O PT morreu e esquecemos de enterrá-lo junto com nossos sonhos de igualdade.

Nossos direito adquiridos?
PT...Saudações!

(Homero de Linhares / 07 de dezembro de 2009)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

YES, NÓS TEMOS STRIPPERS



SOCIEDADE DOS póETAS MORTOS

Foi o Robin Williams quem disse, num comentário infeliz, que o Brasil só ganhou a disputa para sediar as Olimpíadas em 2016 por ter mandado 50 strippers e meio quilo de pó para o Comitê Olímpico.  Como diz aquele ditado: Quem tem telhado de vidro...Pois é o ator já enfrentou problemas pelo uso de drogas, entre elas cocaína. Ele chegou a ser internado em uma clínica de desintoxicação por causa do vício.  Creio que ele tenha sido um dos beneficiados pela cocaína distribuída no evento.  Grande decepção dos fãs brasileiros, que ignoravam ser o ator norte-americano uma pessoa incoerente, inconveniete e digna de uma grosseria dessas.  A xenofobia e a supremacia tola falaram alto na voz do intérprete daquele professor do filme "Sociedade dos PÓetas mortos" e de "PÓpeye". Triste decadência, Senhor Robin Williams.  Se fosse mesmo verdade, em que diferiríamos daquele povo decadente e que não sabe perder?

(Homero de Linhares / 06 de dezembro de 2009)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

CARPE DIEM


CARPE DIEM / SEIZE THE DAY


A vida é agora
por isso eu vivo
a cada momento
como se fosse embora
pra não mais voltar.
.....................
Life is now
Because of it I alive
In every moment
As if I'd go away
To never be back.
...................
A vida é curta
por isso eu vivo
mil dias em um
na absoluta
luta por prazer.
.................
Life is short
Because of it I Alive
One thousand days in only one day
In complete
Fight by pleasure.
...................
A vida é efêmera
por isso eternizo
meu olhar o mundo
na pedra, no tempo
com versos e risos.
...................
Life fades away
Because of it I'd be forever
In my sight of the world
In the rock, in the time
With verses and smiles.


(David Bellmond / Tradução de Elionai C. Cordeiro / 25.11.09)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

PAUSA PARA A CHUVA QUE NÃO DÁ TRÉGUA (1)





A CHUVA

"A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios. A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina. A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos. A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de


vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez muitas poças. A chuva secou ao sol."

(Arnaldo Antunes, 1992)

PAUSA PARA A CHUVA QUE NÃO DÁ TRÉGUA (2)

OUTRA VEZ A CHUVA





A chuva impiedosa
Aumentou as minhas mágoas
E amarelou as águas
Da baía de Vitória.

Quem disse que a chuva é imparcial?
Quem é que fica alagado?
Quem fica desabrigado?
O rico ou o marginal?


A chuva vem com certeza
Balançando meu telhado
Vem com vento e trovoada
Aumentar minha pobreza.


Meus livros todos torcidos,
Os meus discos estragados,
Minha varanda alagada
E eu em casa encarcerado.


A chuva vem outra vez
Destruir em poucas horas
(a chuva ri, minha alma chora)
O que eu ganhei em um mês.



(Homero de Linhares / 02 de novembro de 2009)