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EIS AQUI O ESPAÇO VIRTUAL ONDE AS PALAVRAS BUSCAM SE LIBERTAR DO LIMBO.



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CAROS AMIGOS,

A CARA DO BLOG MUDOU, ENTRETANTO A AVENTURA DE ESCREVER CONTINUA VIVA.

ESTAMOS AQUI À ESPERA DE QUE VOCÊS NOS LEIAM E, SE POSSÍVEL, DEIXEM UM COMENTÁRIO.

ABRAÇO FRATERNO.

(HOMERO DE LINHARES)


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AVISO AOS INTERNAUTAS,

A PARTIR DE HOJE, ESTOU AQUI COM HOMERO DE LINHARES, REVEZANDO NA ARTE DA PALAVRA.

GRANDE ABRAÇO.


(DAVID BELLMOND)







quinta-feira, 8 de outubro de 2009

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINAS 83 e 84)


VITÓRIA É MEU CORPO TODO

Aperfeiçôo minha fala,
Retraduzo meus escritos.
O talento é irretocável,
O absurdo é irrepreensível e falho
E ora eu me espalho
Aos quatro cantos da cidade.

Pedaços das minhas vísceras
Exumem-se na Praça Oito.
Meus pés percorrem afoitos
A escadaria Maria Ortiz,
Meu olho alcança feliz
O topo do Palas Center
E de lá coordena o resto
Dos meus membros perambulando
As frestas da cidade sol.

Minha boca na Catedral
Cantando dim-Dom, Dom-dim,
Meu nariz na Vila Rubim
Antecipando a explosão
Fareja gente e peixe.

Meu ouvido na Assembléia,
Entre o povo e a alcatéia,
Envia aos outros sentidos
Discussões e apelos urbanos
De meus capixabas irmãos.
Minhas mãos, sólidas mãos,
Tateiam a tez de Carmélia,
De Carlos Gomes, de Glória,
De Elmo Elton, Rubem Braga
E Fafi nas horas vagas.
Meu corpo em dispersão merencória
Reorganiza Vitória
E não dá espaço ao sonho
Que dissipa meus primórdios.
Eu sou a nova cidade:
Viola, violão, violência e clavicórdio,
Rimando a palavra saudade
Coma intelectualidade dos bares.
Subo morro, desço vivo
Porque o batuque também me embala.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Páginas 83 e 84.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 85)


POEMA CONCRETO DOS MENINOS NO SHOPPING


Fantasia
Fanta
Azia
Coca Cola
Coca barata
Cola em lata
Games, bate bola
Música eletrônica
Era nipônica
Falas neo-americanas
Grifes bacanas
Saques on line
Poses
Designes
Pais comportados
Filhos imagens
Consumindo discos
Burgues. Bobagens
Até que o teto
Do shopping caia
Sobre sua filosofia
Niilista
E o futuro
Se perca de vista.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 85.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 86)


PRELÚDIO A UM MENINO

Cantem os anjos, dobrem os sinos,
Pois nasceu mais um menino,
Desses que sobem no trono
Para ser senhor do destino
De outros meninos submissos
Que negam-se ao compromisso
De sonhar e moldar o futuro,
Sobrepujando qualquer muro
Que separa coração e mente.

Cante alegre toda gente
Que o novo menino traz
O coração cheio de paz
E a galhardia conseqüente
De uma nova geração.
Dê o sol um novo clarão
Às trilhas destes menino.

As beatas entoem hinos
Pedindo ao senhor Jesus
Alegria e saber divino
Ao peito recém nascido.
Abram-se todos os ouvidos
E apreciem a melodia
Que orgulhosa anuncia
A chegada deste menino.
Dobrem os sinos, cantem os anjos,
Os poetas toquem banjo,
Pois nasceu mais um menino.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 86.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 87)

SETE POEMAS PARA LUSITÂNIA

CANTIGA DE ALÉM-MAR

Lusitânia não é nome de flor,
Mas é flor e dos seus espinhos sabe
Quem a cultiva e dela extrai aroma
De embalsamar feridas, cessar dor.

Lusitânia não é nome de mar,
Mas é mar e protela seus marujos,
(Filhos, poetas, ambos sonhadores)
À terras que inda hão de conquistar.

Lusitânia é nome de cidade,
Mas não é cidade. Quem a habita
Sabe que seu refúgio, estreito antro,
Resguarda um mundo de felicidade.

Lusitânia, no esforço deste ofício
De eternizar aquilo que é fóssil
E transformar pedra em escultura,
Cantar-te ficou ainda mais difícil.

Não deixo de cantar por falta de destreza
Ou ausência do nobre sentimento,
Mas o sol enciumado com sua formosura
Não nos deixa cantar sua realeza.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 87.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINAS 88 e 89)


BALADA LUSITÂNICA

Ingênuo poeta que sou,
Não sei se vou me guardar
Para o dia em que tudo será
Meu quarto de breu e solidão
E consigas assim, Lusitânia,
Abrir meus olhos com teus olhos
E desligar minha escuridão.

Lusitânia esquecida que és,
Não sei se você recorda
De alguma infância perdida
E eu era seu anjo da guarda.
Talvez nem anjo nem nada,
Mas eu rebusco a ficção
Para te encontrar aprisionada
Em minha lusitânica canção.

Que eu exerça meu direito
De admirar teus defeitos
E descansar por instantes
Meu peito em teu peito arfante.
Deixa, Lusitânia, que eu leia
O que o teu olhar não diz,
Pode ser que eu me enganando
Adormeça mais feliz.

Minha armadura insegura
Deixa que eu vista outra vez,
Meu cinzel casmurro afiado
Dando forma à timidez.
Mas, cavaleiro vicentino,
Minha timidez não se engana
Com o canto apaixonado
Das tragédias shakesperianas.
--------
Não me peças que eu te escreva,
Não me peças que eu te cante,
Pois eu já sinto teu rastro
Sem que me implores doravante.
Não peças, Lusitânia, no entanto
Para minha voz emudecer;
É ordem do meu desespero:
Te louvar ou enlouquecer.

Mas se enlouqueço te louvo,
Se te louvo, enlouqueço
E mendigo no chão as migalhas
Do teu impagável apreço.
Eu que já estava de partida
À alguma cidade futura,
Eis que surges e retorno
A tatear-te às escuras.

Já não sei se és um nome
Fictício ou se és real,
Mas que maestria insistente
Domina meu canto passional.
Que aperto sinto no peito
Agora que te versejo,
Que ânsia avassaladora
Me é dada pelo teu beijo.

Que beijo é esse que cito,
Se não sei dos seus contornos?
Meu canto é sua anatomia,
Minha poesia é seu adorno.
Agora noto que foges
E teu vulto vai me abalando,
Teu aceno é voto de espera.
Te esperarei até quando?

Lusitânia, que espectral mão
É essa que segura tua mão?

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Páginas 88 e 89.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 90)


LUSITÂNIA CUBISTA / FUTURISTA / SEI LÁ
(PABLO QUE TRACE SEU ESTILO)


Admiro que seu corpo
Seu corpo tem contornos
Como Les Demoiselles
O rosto embora atrofiado
Múltiplos significados
São dados em cada retângulo
Um ângulo em cada nuance
Vestido azul quase negro
Negro como os temores
Acinzentadas cores
Da cabeça de mulher
Mulher sentada erótica
Em gargalhar Gauguin-green-gótica
Autos e baixos retratos
De luz e penumbra Tânia
Musa em place de Itália
A metafísica que me valha
Na valha na palavra dada
Configure a mulher amada
O cansaço lance nos braços
Do escultor a diva reclinada
Não se compõe nada sem Eros
Nada se revela sem Vênus
Três dançarinas, três músicos
Três músicos, todos três lúdicos
Três garças e a tonalidade esparsa
De um azul não mais celeste
Pictórica Lusitânia
Sua boca, sua conjuntura
Sua matizada textura
Conduz minhas mãos ao mármore
E os desejos esculpidos
Ganham formas ambíguas
E o que ainda não se revela
Possui apenas um só sentido.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 90.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 91)


LUSITÂNIA NA MEDIDA PERFEITA

Caiba na extensão do braço
Do seu laço,
Do compasso,
Do seu abraço,
Meu cansaço.

Caiba esta minha paixão
Na imensidão
Da sua mão,
Insuposição
De distorção.

Caiba minha voz cansada
Na velada
Boca da amada
Que me guarda,
Minha fada.

Caiba toda minha dor
No rumor
Do seu pudor,
Jura de amor
Em esplendor.

Caiba minha boemia
Na heresia
Da poesia
Do dia a dia
De Luzia.

Caiba a noite com insônia
Na infame
Greve de fome,
Que me ame
Lusitânia.


(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 91.)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINAS 92 e 93)


SOBRE O QUE NÃO FOI DITO

NA ANGÚSTIA PASSIONAL


A cidade ostenta sua religiosidade.
Arte barroca e um anjo ao avesso
Prega o amor aos pervertidos.
Eu sou o anjo, Lusitânia.
Sou que te guarneço.
Ao meu lado adormece um lobo
Manipulando minhas teses e todos os sentidos,
Versejando o que não sinto,
Ocultando o que me é sabido
E o alter ego só queria brindar
Ao amor e nada além do afeto feminino
E de tantas delongas o amor foi paulatino.
Foi paulatino o agouro das crenças de menino
E nada restou ao ego que paulatinamente
Devastasse o assombro da selva juvenil.

O anjo perdeu a idiossincrasia no tormento
Quando buscar queria
A mulher dos seus sonhos, o libertamento
Da utopia,
Desconhecendo que a utopia era o avivamento
Da mulher que lhe luzia.







II

A cidade exibe sua crueldade.
Demônios luzidios dissimulam ansiedades,
Paixões esmorecidas, platonismo ao avesso.
Eu sou o demônio, Lusitânia.
Sou eu que te enlouqueço
E um ser subnutrido me desperta com cantos
Do amor que nunca colhi, nunca plantei no entanto.
O poeta só queria ser terno sem ser eterno,
Mas o conduzo apenas às portas do inferno
E o levo à loucura em paulatinas crises,
Paulatinas utopias, efêmeros concretismos
E não são paulatinos os seus dias felizes.
Ora eu e o poeta rumamos ao abismo.

A morte natural, implora o poeta.
O suicídio matinal, observa o demônio.
E enquanto travam lutas o pesadelo e o sonho,
Mais sedenta ainda sucumbe a alma inquieta,
Quase alheia aos monstros, aos anjos, ao próprio dono
E não há alma feminina que lhe acalante o sono.


(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Páginas 92 e 93.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINAS 94 e 95)


CARTA À LUSITÂNIA

Lusitânia, não faça pouco caso
Do amor,
Isso não é lagoa,
É mar.
Não pense que pode
Flutuar
Sobre as águas sem
Ser navegador.

Teria prendido
A lição
Se não tivesse caminhado
Sozinha.
Quem retorna do meio
Do caminho
Amasia-se com
A solidão.

Lusitânia, sou homem crescido
A meu modo,
Aprendi as defesas da infância
E do medo.
Para ser forte me fiz
Aedo.
Fiz do fragmento da palavra
Meu todo.
Minha sombra, mera sobra
Do meu tutor,
Projeta-se sobre toda
Cidade.
Meu corpo minúsculo esconde-se
Atrás da felicidade
De ser o ícone do meu
Próprio andor.

Houve noite em que não contive
O meu lado lobo
Enjaulado em incomum
Lucidez.
Impulsos iracundos cobriram
Minha nudez
Do silêncio e insolente
Verbo ímprobo.

Agrediram-me os símbolos
E os surtos
De falsos mestres, filosofias
De mercado.
Fui primata no sistema
Civilizado,
Mas resisti até o mundo
Adulto.
Os livros pouco me
Ensinaram.
Só me mostraram outros
Homens perversos
E os suicidas fazedores
De versos.

Foram as viagens, Lusitânia,
E os enjôos
De cidades distantes antes
Ignoradas,
Foram as caras diversas
E metamorfoseadas
Que me ensinaram os segredos
Dos vôos
E voar não voei,
Mas naveguei
Até este porto
De onde partem navios
E aedos.


(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Páginas 94 e 95.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 96)




CANTO DESENCANTO

São falsas suas tranças de Rapunzel.
Foste insensível aos contos de fada.
O mar não existe, não existe Ulisses,
Não és Penélope e nem teces nada.

Nem espera há no seu quarto poeirento,
É falso o balouçar do seu cabelo ao vento.
Sua ideologia é falsa e contrária
Ao proletariado burguês e à classe operária.

Que sinal guiará seus sonhos se sonhos não existem
Dentro da conformação universal do seu olho nu?
São falsos seus presságios surrealistas,
Ou não são surrealistas, não são presságios, nem são azuis.

Sua rima é imperfeita, sua repetição é mais imperfeita ainda,
Sua mentira fracassada de celebrar a vida
Limita-se ao seu ego, que é pobre, e aos seus móveis,
Obras de um carpinteiro preguiçoso. Seu choro não comove

Nem ao seu cão carrapatento, último companheiro
A lamber sua face e seu tédio derradeiro.
É falsa a paisagem da sua janela aberta.
O dia ainda subsiste, mas a noite é incerta.

A noite se vier será noite sem misticismo ou lua,
Sem luz dos pescadores perdidos em suas balsas
E ao raiar do dia (mais dia, menos dia)
Perceberás madura que até a dor foi falsa.


(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 96.)