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EIS AQUI O ESPAÇO VIRTUAL ONDE AS PALAVRAS BUSCAM SE LIBERTAR DO LIMBO.



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A CARA DO BLOG MUDOU, ENTRETANTO A AVENTURA DE ESCREVER CONTINUA VIVA.

ESTAMOS AQUI À ESPERA DE QUE VOCÊS NOS LEIAM E, SE POSSÍVEL, DEIXEM UM COMENTÁRIO.

ABRAÇO FRATERNO.

(HOMERO DE LINHARES)


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AVISO AOS INTERNAUTAS,

A PARTIR DE HOJE, ESTOU AQUI COM HOMERO DE LINHARES, REVEZANDO NA ARTE DA PALAVRA.

GRANDE ABRAÇO.


(DAVID BELLMOND)







segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINAS 40 E 41)


A FILA

A fila se estica,
Enviesa, se espreme.
Tem forma de esse,
De dáblio, de ene.
Tem corpo colorido:
Vermelho de cólera,
Amarelo de cansaço,
Cinza de demora
Ou branco seria?

A fila tem mãos
Que escrevem poesia,
Que acenam, se coçam,
Que se cruzam, endossam.
A fila tem braços
Sem mãos, sem noção
Da nobre missão
Do dedo polegar,
Autógrafo de analfabeto.

A fila se estica,
Os enfileirados se amassam,
Discutem política
E as horas passam.
Quem anda entediado
Com a rotina tranqüila
Acha tudo engraçado
E quer entrar na fila.

Lá na frente um maroto
Tenta se adiantar,
Mas a fila protesta
E promete se rebelar.
Soam coros indecentes
Ao vagaroso atendente.
A fila tem aroma
De suor, de colônia,
De naftalina.
Finda o expediente
E a fila não termina.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Páginas 40 e 41.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 42)


QUARTO DE TREVAS

Um olhar enevoado
No rosto sério e calado
De um anjo torto e sem asas
Ilumina a escuridão
Do quarto e da imensidão
De um poeta estarrecido.

E o poeta vela a sombra
Envolta no rosto dela
Sem saber quais os sintomas
Que o obrigam a olhar pra ela.

O quarto preso no abismo
Mas lá fora o crepúsculo é pior.
Tem sol, mas não tem o resquício
De luz que há no olhar dela.

A face não envelhece,
Há uma infância ainda em seu rosto
Mas tantos anos já passaram
Na insônia nupcial.
No entanto o poeta se veste
E penetra mais nas trevas
Da rua que não é de trevas.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 42.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 43)


DEGREDADA

Degredada
Filha de Eva
Gemendo e chorando
No meio das trevas.

Humilhada
Filha de Maria
Amamentando os filhos
De barriga vazia.

Abandonada
Filha de Penélope
Tecendo solidão
Para sua própria veste.

Injustiçada
Filha de Joana
Defendendo os santos
Morrendo profana.

Encarcerada
Filha de Anastácia
Sofrendo horrores
Atrás da amordaça.

Esperançada
Filha de Teresa
Armando-se contra o mundo
Com o poder de sua reza.
Bem-aventuradas
Filhas de Maria
Alfabetizando os filhos
De barriga vazia.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 43.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 44)


O POETA SOBREVOA A CIDADE

Segundo o censo do IBGE
Realizado em 1996,
Linhares possui 125.297 habitantes
E 1 poeta que há 30 anos chora de saudades
Longe dos arredores da cidade.
63.013 homens e 62.284 mulheres
Habitam Linhares
E 1 poeta longe com seu banjo,
Porque o poeta é como anjo
Que não tem seu sexo determinado,
Mas tem asas enormes e esquisitas.
E o poeta sobrevoa Linhares,
Anunciando o bem e o mal
Sobre a cidade natal,
Sem quedar-se em discurso maniqueísta.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 44.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 45)


SONHO FRAGMENTADO

E eu que no sonho anterior
Sonhava voar sobre as casas,
Que tolice a minha agora acreditar
Ter asas,
Subir sobre os edifícios
E me atirar no abismo,
Me espatifar no chão.

Fragmentos de sonhos
Espalhados no chão,
Mas não são utopias,
São vísceras, coração
Que sucumbiu à banalidade
Da lei da gravidade.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 45.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 46)


POEMA MENOR SOBRE A IMBECILIDADE

Era um homem
E era um rio.
A ponte sob o homem que passava sobre o rio,
Ou seria o rio sob o homem que passava sobre a ponte?
Um homem sobre a ponte olhando o rio
Propenso à loucura e ao vazio.

O vazio do homem
Por cima da ponte
Buscando o prazer e a fonte
Da felicidade perdida no horizonte
E de tanto pensar
Se joga no rio.

Não convém aqui reproduzir
A onomatopéia do corpo do homem
Chocando-se com as águas.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 46.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 47)


MARIA BOA-VIDA

Maria Boa-vida de bunda arrebitada
Quer viver sua vida sem conquistar nada.
Conquistar, que isso seja sem luta travada,
Maria Boa-vida não quer lutar por nada.

Maria Boa-vida de cara maquiada
Quer se ascender na vida sem mão calejada.
As mãos têm outro fim pra Maria Boa-vida
Que não seja plantar sua própria comida.

Pra Maria Boa-vida, colher é o importante,
Ela colhe um pouco a cada novo amante.
Maria Boa-vida, soldadeira, ninfeta,
Tudo que faz na vida é tocar clarineta.

Tocar, que isso não tenha que cansar sua beleza,
Pois Maria Boa-vida só toca por defesa.
Defender-se da sina de tocar das mulheres
Que não são boas-vidas e não têm o que querem.

Maria Boa-vida só tem na sua agenda
Horário pra ancião dono de boa renda.
Maria Boa-vida, de flacidez precoce,
Tanto cedeu na vida que morreu sem ter posse.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 47.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 48)




A ROSA

Dentro do teu olho raso
Na tua reza parnasa,
De riso desconcertado,
Há uma Rosa obesa.

Na rua em que cadencias
Teus rotos passos de homem,
A Rosa marcha no ritmo
Que rege a tua poesia

Na tua servidão rara
De regar a solitude
Com teus ritos de Romeu,
Uma Rosa te ampara.

No rumor da devoção
Do teu amor neo-romântico,
Uma Rosa ainda floresce
Nas rimas da tua canção.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 48.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 49)




ESPELHO PAR

Quando te contemplo, Orides,
Graficumana condição,
Perdôo, aceito minhas matizes,
Deslizes.
Me estranho, poeta
Não sou não.

Sua mesquinhez, sua graça
Viva, palavra
Reflexo do último sol.
Minha mesquinhez, minha fala
Opaca, sem fruto,
Sem flor, sem formosura,
Sem clarão.

Que flor brotar no peito
De quem canta,
Se o canto é ainda mais
Dor que a solitude?
Ilude-se a formiga
De que sua faina telúrica
É ainda mais cansativa e dolorosa
Que o canto da cigarra.
No primeiro canto o último labor.

Quem canta abre os pulmões,
Desentope o peito,
Escarnece e faz rarefeito
O ar de quem ama.
Quem tem espelho sabe do diabo
E conhece a imagem do seu criador,
Pois dentro do ser esconde-se o que é heterogêneo.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 49.)

LIVRO "VIDA VIDE VERSO" (PÁGINA 50)


MIA SENHOR SEM NOME

Em quantos versos queres que eu te faça musa,
Sem pintar suas madeixas negras onduladas,
Escondendo a veneração exagerada
Que teu coração quer e teu corpo recusa?

Quanto tempo queres que eu espere calado,
Amada, amante, musa, ou nada disso...amiga?
Quantas noites queres ainda que eu siga
Negando a toda gente estar apaixonado?

Barganho, mia Senhor, por um único beijo
Meus versos ainda que me esqueças após
Distanciarem os meus lábios dos seus e o nós
Que me guiam a tais olhares e desejos.

Um beijo só e seu e eu me limitaria
A beijar teu vulto sem sequer te falar,
E até a morte minha iria eu te beijar
Apenas no universo da minha poesia.

Eu te condenaria ao mencionar teu nome,
Amor secreto, amor por mim desmerecido.
Ah! Eu seria um louco, um fraco, um bandido
Se eu revelasse ao mundo que se chamas...Fome

Fome ou sede (não sei qual é o mais correto)
De arrancar de mim esta vontade louca
De desvendar teu sonho. O que me dar em troca
Desta minha paixão, deste meu peito aberto?

Amemos em segredo ou deixe que eu te ame
Sem que ninguém perceba meu frágil amor,
Que assim nunca terás razão em mim pra dor
E jamais me dirás não, mia Senhor sem nome.

(BELLMOND, David. VIDA VIDE VERSO. Editora do autor: Vitória-ES, 1999, Página 50.)